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Entrevista - Marcelo Alonso

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O Fight2live teve o prazer em conversar com uma das pessoas mais importantes no Brasil quando o assunto é MMA e Jiu-Jitsu. Fundador da revista Tatame (uma das principais fontes de notícias de Jiu-Jitsu e MMA do país), Marcelo Alonso nos concedeu uma honrosa entrevista onde ele fala sobre os bastidores do mundo da luta, Carlson Gracie, MMA no Brasil e muito mais.

- Como surgiu a oportunidade de fazer matérias de MMA para a extinta Kiai?

Em 1992 eu treinava Jiu-Jitsu na academia do Claudio França (Clube Barra) localizada dentro do meu condomínio. Como ele sabia que eu era fotógrafo, e inclusive havia construído um laboratório dentro do banheiro do meu ap, ele sempre me pedia pra fotografar a Copa Atlântico Sul, organizada por ele junto com o Joe Moreira e o Marcus Vinícius (hoje em Beverly Hills). Numa destas oportunidade o Paulo Roberto da Kiai veio ao Rio fazer uma matéria sobre o evento e me pediu pra ceder algumas fotos. Como na época o Jiu-Jitsu estava explodindo e o Paulo sempre precisava de matérias do Rio, ele me propôs que eu passasse a mandar entrevistas, fotos e relatórios dos eventos daqui. Nossa parceria deu tão certo que em menos de um ano eu já havia abandonado meu emprego como biólogo (eu era responsável pelo setor de análises bacteriológicas da Fundação Bio Rio) e aberto um estúdio em Copacabana onde passei a fazer fotos de anúncios e até capas da Kiai, além de ajudar o Ricieli (contato comercial da Kiai no Rio) a vender anúncios. Foi fazendo de tudo um pouco que me apaixonei pelo jornalismo (me formei em 2003). Nos finais de semana costumava cobrir eventos no sábado e no domingo, durante a semana eu fazia as químicas, revelava os filmes, ampliava as fotos (ampliar nos laboratórios 24hs era caríssimo), batia o texto na máquina, fotografava anúncios no estúdio e mandava tudo via sedex pra São Paulo. Na época o mercado do Jiu-Jitsu estava explodindo e eu lembro que numa edição de 93 cheguei a produzir mais da metade das quase 200 páginas da revista. Lembro que a Kiai era mensal, mas saia de três em três meses e mesmo assim todo mundo comprava porque era o único veículo de informação que falava de Jiu-Jitsu,Vale-Tudo e todas as artes marciais. Hoje a gente tem acesso a tudo isso play by play na internet...
 

- Como surgiu a ideia de criar a revista Tatame?

Surgiu da maneira mais carioca possível num encontro na praia de Ipanema entre três amigos Alexandre Esteves, Yan Bonder e Roberto Risada (irmão do Luca Atalla da Gracie). Os caras perceberam que o Jiu-Jitsu estava explodindo e decidiram fazer um jornal. O Risada já me conhecia como repórter da Kiai e marcou uma reunião na casa do Yan onde os três me apresentaram o projeto e me pediram para ceder umas fotos para eles fazerem a boneca (protótipo do jornal) e tentarem vender anúncios. Achei genial aquela batalha de três jovens, sem dinheiro nenhum, para fazer um jornal de Jiu-Jitsu num quarto com 2 Pc´s 286 e resolvi ajudá-los, mesmo sabendo que não receberia nada por isso tão cedo. Lembro que falei sobre a minha decisão de ajudar o projeto do jornal do Jiu-Jitsu e o Paulo da Kiai me autorizou, mas apostou comigo que não duraria duas edições. O que ocorreu foi exatamente o contrário. A Kiai começou a sair cada mês mais tarde e perder força, enquanto o jornal Tatame ganhou a galera, não só pela agilidade, mas por ter um texto e uma diagramação diferenciados para os padrões da época.
 

- E como você começou a trabalhar para revistas estrangeiras?

De uma maneira bastante curiosa. Eu estava cobrindo aquele evento em que o Amaury lutou com o Hulk no maracanãzinho para a Kiai em 95 quando vi quatro japoneses cheios de equipamento barrados do lado de fora naquela região, que de noite era bem perigosa. Os caras tentavam se comunicar mas os seguranças estavam irredutíveis. Aquela situação me incomodou, eu falei com eles e entrei pra chamar o João Alberto Barreto (organizador do evento) que veio resgatar todo mundo. Quando eles souberam que eu era repórter, me convidaram para jantar depois do evento e explicar a eles o que era Luta-Livre, quem eram os melhores do Jiu-Jitsu. Um dos japoneses era o Tanikawa (hoje presidente do K-1) que na época era editor da Kakutougi Tsushin, o outro era o Susumu Nagao (melhor fotógrafo de MMA do mundo). Este jantar acabou rendendo um convite para eu ser correspondente da Kakutougi Tsushin. Desde 1995 eu mando todos os eventos de Jiu-Jitsu, Vale-Tudo e Luta-Livre que acontecem no Brasil pra eles. Em 1996 comecei a trabalhar como correspondente da Cinturon Negro, Budo e Full Contact Fighter.


Marcelo Alonso em sua primeira cobertura do UFC (Amaury Bitteti x Frye - UFC 9)




- Como era cobrir eventos num tempo onde as rivalidade eram tão afloradas?


Durante pelo menos 12 destes 17 anos que venho trabalhando com lutas era como se eu estivesse escrevendo um veículo para Israelenses e Palestinos, tendo que ouvir os dois lados, mas sempre emitindo minha própria opinião, sendo que a minha rotina semanal me levava a cobrir um evento em Jerusalém (Israel) no sábado e no domingo lá ia eu pra Cisjordânia (Palestina) com a revista do mês anterior debaixo do braço. Costumava chegar uma hora antes para contornar “reclamações” e mal-entendidos. Sábado eu cobria um evento do Carlinhos, domingo eu cobria o do Hugo; na sexta eu estava na Barra Gracie na terça no Carlson; num dia eu estava na Chute Boxe no outro na BTT. Como diria o Wallid “era uma guerra”. Mas era exatamente todo este tempero que me fez me apaixonar pela luta. Eu poderia ter me acomodado como outros veículos que não cobriam Luta-Livre, não iam pra São Paulo cobrir o IVC ou pra Curitiba cobrir o Meca, ou pro nordeste cobrir o Natal Fight, mas eu sempre fiz questão de ir a todas as edições de eventos de MMA brasileiros, na maior parte das vezes de ônibus e pagando do meu próprio bolso.


- Alguma vez você foi ameaçado ou agredido enquanto cobria MMA?


Em 2000 um lutador que arrumava brigas nas ruas quase todas as semanas não gostou de um editorial que eu escrevi, criticando suas atitudes e mandou um aluno me agredir durante um campeonato de Jiu-Jitsu, achando que ia me calar, só que o tiro saiu pela culatra. No mesmo dia fui a polícia prestar queixa sobre a agressão e aos Jornais o Dia e O Globo. Colegas meus do mundo todo escreveram editoriais de repúdio aquela agressão covarde, enfim mostrei a ele que querer calar um jornalista com agressões é a atitude mais equivocada que alguém pode cometer. Nem quero entra em detalhes sobre o ocorrido até porque esta pessoa não está mais aqui pra se defender. O importante é que foi um fato isolado e a maior prova disto é que hoje, passado os tempos de guerra, tenho boa entrada em qualquer academia de MMA ou Jiu-Jitsu.


- Você acha que a paternidade do MMA está preservada em nome de Hélio Gracie ou os americanos conseguiram roubá-la?


Confesso que fiquei preocupado que eles repetissem no MMA o que fizeram com Santos Dumond na aviação, principalmente depois que fiz uma matéria com o Gene Lebell em 1997 onde ele disse que o mestre dele fazia Vale-Tudo muito antes dos Gracie. Ora bolas uma cara que usa quimono rosa conhecido por suas lutas de telecatch vir falar de Carlson e Hélio Gracie. É pra revoltar qualquer fãs de lutas, não só brasileiros... Mas hoje, graças as excelentes participações brasileiras no UFC, acho que a história do esporte está bem marcada na cabeça dos americanos e nem um cara de pau teria como negar a paternidade do MMA.


- Você vê alguma lutador em condições de vencer o Fedor hoje?

O Fedor é realmente um fenômeno. Ele é excelente em pé e já provou isto trocando de igual para igual com o CRO Cop; tem um excelente Wrestling e joga muito bem por cima. Além de tudo isto é um cara super humilde, mas na minha opinião ele tem uma brecha que só um bom lutador de chão pode usar, o seu jogo por baixo. Ele pode até ter um excelente armlock da guarda, como mostrou com o Coleman, mas não tem o quadril solto para segurar a pressão de um lutador top de Jiu-Jitsu. Infelizmente a única vez que o Minotauro conseguiu colocá-lo de costas no chão, o round estava terminando. Acredito que o Pezão bem preparado, pegando mais um pouco de experiência de ringue possa ser o cara certo para vencer o Fedor. A melhor oportunidade para saber se estou sendo muito patriota nas minhas previsões é o ADCC 2005.


- Você acha que o Roger finaliza o Fedor ?
No MMA acho que o Roger ainda precisa pegar muita experiência, hoje me arriscaria a dizer que ele seria nocauteado pelo Fedor, mas se o assunto é Submission diria o mesmo para o Fedor. Por mais que me esforce não consigo ver ele durando mais de 10 minutos na mão do Roger ou qualquer outro top do Jiu-Jitsu que tenha competência para raspá-lo e colocá-lo de costas no chão. Quem sabe o Sheik não case uma luta entre Fedor e Marcelinho no absoluto.


- Quem é o melhor lutador pound for pound (entre todas as categorias), Anderson, Fedor ou algum outro?

Colocaria o Anderson em primeiro, em segundo o vencedor da luta entre BJ e GSP, em terceiro o perdedor e em quarto o Fedor.
 

- Quem foi o maior lutador de MMA entre os Gracies?

Quem assistiu todas as gerações diz que foi o Carlson. Dentre os que vi em ação acho que o Rickson foi o melhor pela superioridade total que enfrentou todos os oponentes. Mas se formos levar em consideração o nível dos oponentes, Renzo foi sem dúvida o que pegou as maiores pedreiras seguido do Royce. Mas em termos de importância para a história do esporte, sem dúvida o Royce foi o no1. Se o sobrenatural de Almeida do Nélson Rodrigues tivesse entrado em ação e acertado um pombo sem asa no Royce no UFC 1 o esporte não teria chegado ao patamar em que está e nós provavelmente estaríamos fazendo outra coisa hoje.



Marcelo Alonso com as feras Vitor Belfort e Royce Gracie


- O que você acha da situação atual da equipes de MMA no Brasil? Estão se esfacelando ou continuam fortes?

A Chute Boxe e BTT obviamente perderam força em conseqüência da mudança radical da política do MMA mundial. Na época do Pride quem dava as cartas eram as equipes, na realidade do UFC pouco importam os times, o que vale são os lutadores. Se as grandes equipes vivem das bolsas de seus grandes atletas e estes montaram suas próprias equipes é óbvio que Chute Boxe e BTT perderam força no mercado, mas ambas continuam firmes e fortes e, tenho certeza em breve voltarão a lançar uma nova safra de campeões no mercado.


- Você percebe um interesse maior da mídia do Brasil no MMA ou continua um esporte underground por aqui?

Obviamente o interesse vem aumentando, mas continua sendo underground. O quadro deve mudar em breve em decorrência da influência natural que os EUA exercem por aqui. Infelizmente aqui as coisas são valorizadas da seguinte maneira: se estourou lá deve ser bom... e a maior prova disto é que na época do Pride onde nossos ídolos eram “quase donos do esporte” a grande mídia não nos dava a menor bola, hoje com a explosão do MMA nos EUA a mídia nacional começa a dar sinais de entender que o MMA é hoje um esporte com grande potencial de audiência, basta checar os números do Sportv onde só perdemos para o futebol.


- O que falta para esse esporte crescer no Brasil?

Que algum empresário da TV aberta perceba que o mundo se rendeu ao MMA, agora só falta o país que criou o esporte e que faz os maiores campeões. Se os eventos internacionais de Boxe, que em 90% das vezes, eram transmitidos em horário nobre na Globo com excelentes índices de audiência, porque o MMA, que é muito mais show, muito mais excitante e ainda tem brasileiros entre os principais lutadores, não pode ser transmitido ? Ninguém está dizendo que o MMA não é violento e deveria ser transmitido as 7 da noite na TV, mas não vejo porque não transmiti-lo após as 10 como era o Boxe. O Sílvio Santos tentou fazer isto na luta do Belfort com o Liddel e cravou 11 pontos, um recorde para o horário. Por que ninguém tenta fazer um teste transmitindo em TV aberta um evento do Anderson, Wanderlei ou Minotauro no UFC ?


- Por que ninguém organiza uma comissão Atlética, como tem em Nevada, nos EUA, para regulamentar o MMA no Brasil?

Isto seria realmente essencial. Parece que o Carlão Barreto já está trabalhando neste sentido. Aliás ele seria uma pessoa ideal para começar este trabalho. Conhece o esporte como ninguém, é sério muito competente e bem aceito por todos os promotores.
 

- Pride ou UFC, qual seu favorito?

Acredito que nunca vá existir nada igual ao Pride. Não falo só do show, da música, mas também da atmosfera que antecedia o evento, o café da manhã, a pesagem, a idolatria dos fãs no hall do hotel. Tudo era único. Tive o privilégio de cobrir cinco edições e hoje me considero uma das “viúvas do Pride”, como diz o Bebeo. Costumo resumir o Pride com as palavras da Glória Maria, que foi cobrir conosco o Pride 2003. “Já estive em alguns dos maiores shows de rock do mundo e nunca vi nada que se aproximasse ao Pride”. Se a Glória Maria disse isso quem sou eu pra discordar ...
 

- O que você acha de Dana White?

Um cara inteligentíssimo e de fundamental importância na história do esporte. O cara pegou um esporte falido e por intermédio de um reality show o transformou numa marca milionária que alavancou o MMA. Hoje, graças a Rorion Gracie, que levou o Vale-Tudo para lá e a Dana White que investiu milhões na metamorfose do Vale-Tudo em esporte, o MMA já é mais popular que o Boxe por lá. Infelizmente a virtude que sobra nele (coragem), falta aos empresários brasileiros. Hoje o produto está pronto para ser sucesso de audiência na TV aberta em qualquer país e nem assim nossos empresários querem “arriscar”.

 
- Você, que era muito próximo a Carlos Gracie, pode explicar para os novatos a importância dele para o MMA?

Infelizmente não cheguei a conhecer o mestre Carlos. Na verdade a primeira edição da Tatame saiu com a última entrevista que ele deu, mas foi o Yan Bonder quem fez. Eu ouvia falar muito dele pelo Carlson, mas confesso que não tinha a idéia exata da importância dele na história do Jiu-Jitsu. Depois de ler o livro da Reila Gracie mudei totalmente a minha concepção. Aliás quem gosta de Jiu-Jitsu ou MMA tem que ler este livro. Resultado de 10 anos de pesquisa da Reila, este livro é na minha opinião uma bíblia para qualquer fã de Jiu-Jitsu ou MMA.
 

- O que você acha do MMA feminino?

Confesso que não gostava muito no início. Como não havia muitas competidoras, nem graduação do nível das meninas, as lutas sempre acabavam com uma surra, agora não. Estive com a Carina Damm e com a Vanessa Porto num evento americano (Fêmeas Fatais) e quase todas as lutas foram excelentes. As meninas tem uma garra impressionante. Atletas como Vanessa Porto, Cris Cyborg, Carina Damm, Michele Tavares e as Índias (Ediane e Ana Maria) não podem ficar desempregadas. Torço muito para que o UFC comece a colocar pelo menos uma luta feminina por card...


- Que evento mais te marcou nesse anos dedicados ao MMA?

Teria que apontar dois. O MARS (1996) onde o Murilo empatou com o Tom Erikson, o Renzo nocauteou o Taktarov, Zé Mario e Carlão também finalizaram. Este evento me marcou não só pelas vitórias mas pela união dos brasileiros nos bastidores. Naquela época havia muita rivalidade no Jiu-Jitsu (Carlson e Barra) e a galera superou pelo Brasil.

Um outro evento que me marcou muito foi o Pride GP de 2003... Aquela vitória do Minotauro, Wanderlei campeão do GP e a Glória Maria lá com a gente, foi demais. Até as lutas começarem eu tava muito triste que os caras do Pride me barraram, por politicagens, e eu tive que escalar uma torre escondido pra fotografar. Lá de cima, depois de ver o Minotauro apanhar o round todo vejo ele levar um knock down no fim do round, e pensei que o juiz tinha terminado declarando nocaute. De repente ouço o gongo soar e, sem entender nada, vejo o Rodrigo derrubar, passa a guarda, montar e finalizar o Cro Cop. Sem dúvida aquela foi a minha maior emoção nestes 17 anos cobrindo lutas. Pior que eu mal me recupero daquele golaço e o Wanderlei vai e mete aquele nocautão no Quinton depois de atropelar o Yoshida e vence o GP, mesmo com uma tendinite que fazia o cotovelo dele parecer um pepino. Foi demais ! Num evento daquele até a Glória Maria, que chegou dizendo que não considerava aquilo esporte, saiu se dizendo fã de MMA. Duas semanas depois nos encontramos na casa do Minotauro e ela disse que o programa havia tido uma audiência acima da média mesmo para o Fantástico.



Alonso e Minotauro no ônibus do Pride após a inesquecível luta contra Mirko Cro Cop



- Alguns lutadores insitem com a tese de que o MMA um dia será esporte olímpico. Você acha que isso é possível?

Não. acho que o Submission tem tudo pra ser mas o MMA é essencialmente um esporte profissional.


- Como foi a sua primeira cobertura de um evento no exterior?

Na realidade foi no terceiro evento de MMA realizado no Japão, O Universal Vale-Tudo Fighting 1 em 1996. Um ano depois do Japan Open 2 e um ano antes do Pride 1. Este evento foi organizado por um japonês chamado Miura que fez o Gaizei Challenge junto com o João Alberto Barreto na Ilha dos Pescadores no Rio. Os dois leveram uma verdadeira seleção brasileira pra lutar. Wallid, Carlão, Bigú, Hugo, Ebenezer, The Pedro, Johil e Marcelo Mendes. Ainda foram Carlson, Brunocilla, João Alberto e Libório de brasileiros. Esta foi a primeira vez que os brasileiros (não Gracies) lutaram no Japão.
 
 
- Quem pagava suas viagens era a Kiai ou o Tatame já conseguia arcar com os custos ?

Nem o Tatame nem a Kiai. Na realidade eu tinha uma namorada que trabalhava na Varig e me colocou como GC, um benefício que se dava na época para cônjuges e funcionários. Desta maneira eu pagava só 10% do valor da passagem o que dava uns US 200. Lá no Japão fiquei agregado no quarto do Carlson e de outros lutadores. Mesmo com todas esta molezas não tinha como não voltar com um rombo no cartão, mas a paixão pelo esporte e a certeza que o Vale-Tudo um dia iria explodir me faziam acreditar que valeria a pena todo aquele investimento.


- Valeu a pena ?

Com certeza. Nada paga o prazer de ter visto este esporte crescer, de ter estado presente em todas as edições do IVC, do MECA, do Jungle, do Mundial de Jiu-Jitsu, do ADCC, ou seja ter acompanhado e registrado com imagens cada passo de todos os nossos grande ídolos tanto do MMA como do Jiu-Jitsu e submission. Isto não tem preço
 

- Qual foi a pessoa que mais contribuiu para a sua evolução como profissional ?

Como não havia jornalistas de luta na época não tive muito em quem me espelhar. Mas por um lado isto foi bom, pois talvez se tivesse tido um professor ele me mandasse escolher entre escrever e fotografar, o que eu não concordo. Eu acho que o grande barato do jornalismo é você conseguir, ou pelo menos tentar da melhor maneira fazer os dois. Por isso sempre procurei ler muito para melhorar minha escrita, fazer muitos cursos de fotografia para melhorar a minhas imagens e, obviamente terminar a faculdade de jornalismo (2003), que também foi muito importante.
 
 
- Você se considera mais fotógrafo ou escritor ?

Cara eu sou meio pato. Faço de tudo um pouco, mas não acho que faço nada bem. Acho que o que tenho de melhor é o faro pra notícia e uma certa sorte nas coberturas, mas não escrevo bem nem sou um grande fotógrafo.


- O Mestre Carlson deixou muitas saudades?


Só quem conheceu e teve o prazer de conviver com o Carlson pode ter idéia da falta que ele faz. Nunca conheci figura tão carismática em toda a minha vida. Já dei uma sugestão de pauta pro Luciano Andrade do Premiere: O Momento Carlson Gracie. Convida as maiores autoridades no assunto: Manimal, Wallid, Allan Góes, Paquetá, Bebeo, Zé Mario, Murilo, Belfort, Rodrigo Medeiros, Vinicinho, Carlão Barreto. Porque na realidade o grande lance das histórias do Carlson é você assisti-las contatadas por seus bons imitadores, escrito perde a graça. Liga a câmera e deixa os caras num estúdio lembrando histórias do Carlson e imitando ele, se não interromperem vai dar 24 horas de programa. É campeão de audiência na certa !


- Alguma história de bastidores curiosa com ele ?

O Carlson era uma figura tão ímpar que sair pra almoçar com ele significava voltar pra casa com no mínimo três histórias muito engraçadas. Imagina você viajar e passar uma duas semanas com o cara o dia todo. Se você me pergunta uma história curiosa dele vai dar um nó no HD, até porque 80% são impublicáveis ... A gente costumava dizer que o evento não precisava ser bom se o Carlson estivesse a viagem já tinha entrado pra história.


- Como surgiu a amizade entre vocês ?

O fato de ter o Paquetá como meu melhor amigo na luta me aproximou muito do Carlson, que era o melhor amigo dele. Na época que o Vale-Tudo explodiu eu viajava praticamente todo mês pra cobrir VT e em diversas oportunidade ficávamos no mesmo quarto. Mas não pense que ser amigo do Carlson era um mar de rosas, ainda mais sendo editor da Tatame, que ele considerava o veículo mais imparcial. Perdi as contas do número de vezes que brigamos por causa de matérias. A minha sorte é que em todas as nossas brigas tinha o Paquetá pra interceder, graças a ele eu tive o privilégio de ser amigo dele até os últimos dias.
 
 
- Qual a última lembrança que você guarda do Carlson ?

Nos últimos meses de vida ele tinha mania de comprar um cartão de 10 dólares que dava seis horas de ligação pro Brasil. Aí ele ligava pra todo mundo. Teve uma noite que ele me ligou de madrugada pra falar alguma coisa. Eu tinha saído e a minha irmã tinha ficado quase duas horas no telefone com o namorado. Quando finalmente a minha mãe atendeu ele perguntou: quem estava no telefone ? e a minha mãe respondeu que era a filha dela e ele sem a menor cerimônia mandou: “Pô quase 2horas, poderosa hein ! diz pro Marcelo Alonso pra ligar pro Carlson sem falta”. A minha mãe morreu de rir.



Alonso ao lado do eterno Mestre Carlson Gracie


- Atualmente o UFC vem reinando absoluto no mundo das lutas, você acha que o Afflicition vai conseguir concorrer de igual para igual?


Gostaria de dizer que sim, mas sinceramente não acredito. Hoje a marca UFC é tão forte que muitas pessoas não sabem o que é MMA, mas a maioria sabe o que é UFC. O pessoal do Affliction está fazendo um excelente trabalho, mas pra concorrer de igual pra igual, seria necessária alguma revolução. Mas sabe-se lá, depois do fim do Pride e tudo que ocorreu depois eu acredito que tudo é possível.
 

- Tem histórias de bastidores inéditas para contar?

A gente falou tanto de rivalidade e de como era difícil manter um bom trânsito entre “israelenses e palestinos” que eu lembrei de uma história de bastidores de um tremendo vacilo meu na final do Pride GP dos médios em 2005, quando o Arona ia lutar com o Wanderlei pela primeira vez.
Um conselho que eu sempre dou para qualquer jornalista que entre no meio de lutas é que nunca vista uma camisa de uma equipe no dia de um evento. Acho esta postura essencial para que qualquer profissional que almeje respeito. Eu sempre fui tão paranóico com isso que nem levo camisas de luta para eventos, só que neste Pride eu cai numa armadilha e mordi a língua.
É difícil explicar o clima pesado que tomou conta do hotel neste dia o clima era literalmente de guerra. Os caras tomavam café em horários diferentes para não dar problema, na pesagem Wanderlei e Arona quase se pegaram, até a loteria de entrar no elevador sendo de uma das duas equipes era um momento tenso. Neste evento eu acho que era a única pessoa que conseguia transitar entre as duas equipes. Mas o clima era tão pesado que pelo fato de eu estar no quarto do Luiz Alves e do Dórea, treinadores do Rogério, sentia que o Rudimar não estava à vontade comigo, apesar de toda a nossa amizade de longa data. Definitivamente o Tokyo Hilton tinha virado a faixa de Gaza do MMA. Pois no dia do evento acordei em cima da hora do café com o Luiz gritando: Marcelo daqui a 10 minutos vai fechar o Buffet. Dei um pulo da cama lavei o rosto, escovei os dentes e peguei a primeira camisa que estava por cima da minha mala e entrei voado no elevador. Foi quando o elevador parou logo abaixo e entraram Rafael e Rudimar, que olharam para o meu ombro de cara feia e mal me deram bom dia. Foi quando olhei para o espelho e percebi que estava vestido com uma camisa que o Bebeo acabara de me dar na noite anterior onde se lia no peito e no ombro: BTT 5 anos.
Quatro horas depois, já no Tokyo Dome, enquanto Wanderlei e Arona testavam os ringues o Rudimar me chamou no canto do ringue e me passou um justo sermão. “A equipe Chute Boxe está revoltada com sua atitude. Sempre te recebemos em Curitiba como um amigo e não podemos aceitar que no dia do maior clássico do MMA mundial você vista a camisa da Argentina”. Nem precisa dizer que não tive como justificar o injustificável. Bola fora total. Depois desta fiquei ainda mais xiita. Hoje não uso camisa de equipes nem pra ir na padaria.

* Colaboração: Mario Neto, Yassuo Inafuku, Guga Noblat e Samuel Selva

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