marionetoo
21-01-08, 01:22
Parte 1
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RENZO GRACIE, nas vezes de árbitro, observa atento Amaury Bitetti levantar na guarda de Gurgel. Já que o companheiro Libório não o enfrentaria na final, a vitória deu a Bitetti o primeiro título mundial absoluto da História.
1996
Fazendo História
Como surgiram os primeiros campeões mundiais de Jiu-Jitsu da faixa-preta
A área de aquecimento tem poucos atletas. Nos tatames, Ricardo Libório encara o adversário. Remco Pardoel devolve o olhar. Baixo e atarracado, aquele considerado na época pelo Mestre Carlson como seu melhor aluno em atividade fica ainda menor de joelhos dobrados. A postura é para se prevenir das quedas do holandês. O Tijuca Tênis Clube está aquecido pelo verão carioca. Quase quatro mil pessoas nas arquibancadas se levantam quando “Liba” fecha as pernas em torno do quadril de Pardoel, escala-as apoiando-se nas largas costas do oponente e, finalmente, completa a chave no braço esquerdo. Vitória brasileira. Mais uma.
O I Mundial de Jiu-Jitsu foi realizado no primeiro fim de semana de fevereiro de 1996, no Rio de Janeiro. Teve a participação de lutadores de nove países: Brasil, Estados Unidos, França, Japão, Holanda, Suíça, Emirados Árabes, Itália e Cuba. Para trazer lutadores estrangeiros, houve uma luta mais dura que a de Libório descrita há pouco. Afinal, o Jiu-Jitsu engatinhava em lugares afora Brasil e EUA. Os poucos focos eram de difícil comunicação, já que o acesso a internet ainda se expandia a passos de tartaruga. Ainda sim, veio um punhado. E alguns conseguiram boas colocações (na faixa-azul). Do Brasil, os melhores se inscreveram, tal qual aconteceria nos anos seguintes.
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Roleta grampeia as costas de Wallid, e a autoridade de Sergio Ignácio registra quatro pontos.
É domingo, dia 3 de fevereiro, dia da faixa-preta. O ambiente é bem diferente daquele dos atuais campeonatos. Poucas lutas para o título, muito respeito e silêncio na arquibancada. Helio Moreira, o folclórico Sonequinha, abre as disputas, contra Otávio Couto, o Ratinho. A vitória de Soneca vem numa luta parelha, mas um ataque pouco usual nas costas faz os espectadores aplaudirem, pela primeira vez no dia. Soneca apóia a cabeça no chão, se pendura nas golas de Ratinho e, feito um compasso, traça um arco em volta do adversário, saindo de um lado, chegando no outro. Ele daria o nome ao movimento: “volta ao mundo”.
Mas é o mundo que gira em torno de si por algumas horas após a cena, enquanto faixas-pretas se credenciam para as finais. Royler Gracie vence com autoridade Marco Aurélio, e consegue a revanche do último Brasileiro. Antes que chegue à decisão contra Vinicius Draculino, passa por João Roque, em outra grande luta. Jamelão, no médio, despacha um grande mito do Jiu-Jitsu: Sérgio Penha, que voltara a competir cerca de 15 anos após memorável combate contra Rickson Gracie, numa decisão de campeonato carioca. Algumas chaves são interrompidas por que lutas importantes se desenharam. A espera é pelas duas da tarde, quando, ao vivo, o Sportv começa a transmitir o evento.
A História, ao vivo
No início do televisionamento, surge na área de lutas o então mais famoso lutador de Jiu-Jitsu sem sobrenome Gracie: Wallid Ismail. Seu adversário na semifinal do meio-pesado é Roberto Magalhães, o Roleta, que fora graduado a quatro dias da competição. “Se eu perder, corto a minha mão”, prometera o amazonense. Talvez Wallid estivesse preparado para lutadores de Jiu-Jitsu. Mas não para o “esqui-jitsu”. Por mais de nove minutos, no entanto, ele parece sem risco de ficar cotó. Se embola nas longas pernas do adversário, e mantém-se com boa base, combatividade suficiente para uma vitória por decisão. Só que, a segundos do fim, a estranha alavanca funciona, e Roleta, após projetar Wallid com uma das pernas entre as do rival, pára nas costas, enganchado, senhor de quatro pontos que lhe catapultam para o time de melhores do mundo.
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No único filme colorido usado por Ricardo Azoury, Gordo usa a guarda para conter Jamelão.
Murilo Bustamante x Fábio Gurgel. É de se estranhar que dois dos melhores lutadores da década passada pudessem ter se enfrentado apenas uma vez na faixa-preta até esta final do peso pesado. Mas a freqüência de confrontos diretos era, de fato, muito menor antigamente. Gurgel, que havia perdido em 1993, aproveita a chance e, com uma queda e uma passagem, vence o combate por 5 a 0.
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Gurgel busca passar a guarda de Bustamante para levar o pesado.
Outra revanche, também de 1993, na final do super-pesado: Ricardo Libório vai atrás de seu único algoz até então na carreira, Leonardo Castello Branco, que o ganhara na faixa-marrom. A gana é grande, e o prêmio alcançado. Uma queda, uma quase montada, e enfim a eletrizante vitória do lutador da Carlson.
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Com o joelho na barriga do adversário, Royler procura o juiz e se certifica que a posição foi computada.
Soneca é campeão ao vencer Wellington Megaton no pluma, Royler ao derrotar Draculino no pena, e Roberto Gordo ao se impor sobre Jamelão no médio. Zé Mario vence o pesadíssimo sem disputar a decisão (Roberto Traven, de ombro contundido, retira-se). Paulo Barroso no leve, leva o título, após chegar na final com o companheiro de equipe Renato Barreto que, por sua vez, tinha sido beneficiado por não lutar a semifinal: deparara-se com o recém-graduado (e também da Gracie Humaitá) Saulo Ribeiro, aquele se tornaria, nos anos seguintes, o maior detentor de títulos mundiais em anos distintos da faixa-preta (1997, 1998, 1999, 2000 e 2002).
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Soneca monta com classe na final do pluma.
Amaury absoluto
Após a vitória sobre Wallid, Roleta ainda não tinha acabado sua missão. Enfrentaria, na final, Luis Bebeo pela briga do ouro meio-pesado. Ele conta: “Foi uma grande festa após a vitória sobre o Wallid, mas eu queria mesmo era ser campeão, queria ser reconhecido pelo título, não por uma única vitória em cima de alguém, ainda que tenha sido uma vitória especial. Então, não me deixei contagiar, voltei para a arquibancada, botei meu walkie-man na orelha e me concentrei. Me preparei para outra luta dificílima, afinal o Bebeo era outro lutador bastante conhecido na época, mas acho que ele se assustou. Acabei pegando ele no triangulo”.
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Jamelão despacha o veterano Sérgio Penha.
Foi nesse passo, com os descontos para os desvios que a memória e os registros possam ter, que aquele memorável dia transcorreu, até o momento da luta entre Libório e Pardoel – conhecido por suas participações no então mais recente frisson das artes marciais, o UFC – pela divisão absoluto. Pelo outro lado da chave, e logo após a vitória do companheiro de equipe, entra em cena o melhor competidor da época, Amaury Bitetti. Seu adversário pela semifinal do absoluto é Fábio Gurgel. A quem Bitetti já tinha enfrentado inúmeras vezes, e perdido apenas uma.
O registro, no entanto, é apagado. Afinal, agora começou a era dos mundiais. E Bitetti, com boa base e jogando por cima, leva a melhor. A luta tem pouca ação, mas quem pode reclamar após assistir à final entre Roger e Jacaré dez anos depois? Libório abre passagem, e Bitetti se torna campeão mundial absoluto. O primeiro da História.
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Bebeo comemora ao fundo a passagem à final do meio-pesado enquanto Ricardo Americano, com o gesto semelhante, contesta a decisão do juiz.
1997
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Royler agarra Shaolin pelo pé para conquistar o pena.
Bitetti and Royler...
... sobram num Mundial marcado pela transição, W.O.s, e uma cassetada de fazer inveja ao Faustão
Aluta foi melhor que a do ano anterior, o resultado o mesmo: vitória de Bitetti, que se manteve por cima e tentou passar a guarda, soltando até uma estrela para tal. Levou não por pontos, mas na decisão do juiz. O placar foi, sim, alterado na semifinal entre os dois grandes nomes do campeonato, Royler e o próprio Bitetti. Neste confronto, o Gracie queria jogar por cima, mas foi surpreendido logo no início por uma passa-pé, e tomou dois pontos que lhe custaram qualquer chance de sair vitorioso do seu sétimo compromisso do dia.
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A queda com que Amaury encurtou os planos de Royler no absoluto.
Bitetti optou por não lutar na categoria de pesos e ainda foi beneficiado pelo W.O. de Nino Schembri, que abandonou o ginásio e a disputa do absoluto após a derrota para Saulo Ribeiro na final dos médios. Assim, enquanto Amaury havia enfrentado, até ali, apenas Alexandre Paiva, e vencido por uma queda e uma passagem de guarda, Royler suou feito um triatleta, com seis vitórias antes de encarar o eventual campeão.
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Por cima, Zé Mario venceria Gordo mas não voltaria para lutar a semifinal do absoluto.
O professor da Gracie Humaitá derrotou, no pena, Luis Amigo e Otávio Ratinho por finalização. Venceu Alexandre Soca por pontos e fez talvez a melhor luta da faixa-preta contra Vítor Shaolin, na finalíssima. Não satisfeito, ciscou entre os mais pesados, onde derrotou Arthur Ignarra e Léo Dalla antes de parar em Amaury.
Os W.O.s foram uma característica da principal categoria naquele ano.
Alguns atletas, após a disputa de seu próprio peso, desanimavam. Três anos depois, a CBJJ passaria as lutas do absoluto para sábado, e assim diminuiria este problema. Não resolveria um caso como o de Zé Mario Sperry, que acabou poupando Fabio Gurgel de uma semifinal. Ele havia vencido Saulo e depois Roberto Gordo. Contra o hoje professor da Gracie Barra Combat Team, chegou o mais perto de uma derrota na carreira esportiva até então. Perdia a luta até os momentos finais, quando conseguiu prender um braço do adversário com o próprio kimono e, para alívio da torcida da academia Carlson Gracie, passou a guarda e virou o placar. Exaurido, Sperry abandonou a chave após a peleja.
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Márcio Feitosa controla Leozinho para inaugurar os “clássicos leves” dos mundiais.
Pelo menos dois grandes personagens da faixa-preta naquele ano não figuraram no absoluto: Márcio Feitosa e Leonardo Vieira, finalistas até 73kg. Nos anos seguintes, e com a adição de Vítor Shaolin à categoria, os três fariam entre si os maiores clássicos dos mais leves em Mundiais, até hoje. Naquele ano, vitória de Feitosa.
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Saulo puxa Nino, garante o ouro e, indiretamente, facilita os trabalhos de Amaury no absoluto.
Destaque em 1996, Roberto Roleta voltou a gravar seu nome na competição, ao fechar o meio-pesado com o xará Gordo. Como a Gracie Barra já tinha dois representantes, ele guardaria a sua estréia no aberto para 1998. Mas isso é assunto para a próxima edição.
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Timoneiro da Nova União, Dedé Pederneiras pára na guarda de Renato Barreto, eventual semifinalista até 73kg.
Entrevista – Ricardo Liborio
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Libório: “Depois do Mundial viu-se que o Jiu-Jitsu vendia e podia ganhar a TV”
No primeiro e único Mundial em que se elegeu os atletas mais técnicos de cada faixa, o nome de Ricardo Libório levou com sobras o prêmio na preta. O que esse título representa hoje para você?
Fiz parte de uma geração que entrou para a História, até mesmo por ter sido uma das primeiras. Então considero esse título bastante especial e tenho muito orgulho até hoje, só posso dizer isso. Foi importante, e não só pelo I Mundial ter sido o primeiro grande campeonato organizado. E acabou sendo o único título de mais técnico concedido. Depois desse não elegeram mais ninguém, devia ser um problema. Mas não tenho a mínima idéia por que não elegeram mais.
O que você acha que realmente impressionou o júri?
Certamente o fato de ter finalizado cinco das seis lutas que fiz no dia se não me engano. Só não finalizei a semifinal do absoluto, contra o Léo Castello Branco. O fato de as finalizações terem acontecido contra caras muito mais pesados e bons, como o judoca Marcelo Figueiredo e o holandês Remco Pardoel, no armlock, fez a diferença na hora da escolha.
Qual foi seu momento mais marcante no Mundial?
Eu era um cara de 83kg lutando numa categoria bem acima. Me inscrevi na categoria bem mais pesada para lutar com o Léo Castello Branco, era a minha missão nesse Mundial. Eu tinha perdido pro Léo em 1993 e tinha sido o único cara a me derrotar em campeonatos, então eu tinha que lutar com ele de novo. Sabia que tinha condições de ganhar dele e então me preparei melhor, e aconteceu. Foi uma queda ou uma passagem, por pontos, não lembro exatamente. Esse sem dúvida foi o momento mais marcante. Hoje acho o Léo um cara excepcional, um dos caras mais maneiros e que mais respeito no esporte. Ficamos grandes amigos.
Ainda que você tenha sido o mais técnico, você não saiu como o campeão absoluto, fechando com o Amaury Bitetti e dando o título para ele. Você se considera em parte campeão absoluto também? É outra situação que mudou com os anos, notadamente quando em 2003 Márcio Pé de Pano e Roger Gracie decidiram lutar à vera sendo da mesma academia...
Exato, isso não existia na época. Ocorreu que eu já havia ganhado o peso. Quando fui à semifinal com o Léo e ganhei, o Amaury ganhou o absoluto, eu já havia ganhado uma no peso, não faria sentido. Não me considero de maneira nenhuma também campeão absoluto de 1996, seria tirar o mérito do Amaury. Não faço isso, não sou assim. Foi até um acordo que fizemos antes da luta, passei pra ele e não tem problema nenhum. O Amaury foi o campeão absoluto e não me considero nada, não.
E você não lutou mais depois do Mundial de 1996. Por que parou ali?
Eu já estava vendo outras coisas para minha vida. Trabalhava como gerente do Banco do Brasil e era um trabalho full-time, não tinha muito como dividir.
O que mudou a partir desse primeiro Mundial?
Na época em que a gente começou não existia praticamente campeonatos de Jiu-Jitsu. Era época de uma galera como o Murilo, Fábio Gurgel, Royler e tinha no máximo um campeonato por ano, o “Armazém do Esporte”, nem lembro. Eram muito esparsos, hoje a freqüência é absurda. A Company realmente veio com o primeiro grande campeonato, dali o negócio começou a se desenvolver. O I Mundial, em 1996, foi um evento enorme: foi a primeira vez que tivemos TV ao vivo. Vejo esse Mundial de 1996 como um grande marco para o Jiu-Jitsu, porque depois dali todos viram que o Jiu-Jitsu tinha potencial para crescer e se espalhar pelo planeta. Viram que tinha condição de ser um esporte organizado, televisionado sem problema nenhum, e que vendia e atraía os patrocinadores. Marcou ainda pelo lado do profissionalismo: a partir dali muita gente viu que tinha capacidade para se dedicar profissionalmente ao negócio e participar de eventos grandes. Os atletas tornaram-se profissionais.
E hoje você lidera a American Top Team, na Flórida. Quem foi melhor, o Libório lutador ou o Libório córner?
Pois é, hoje a velha geração está sempre nos EUA, ou viajando pro Japão... Minha missão hoje é muito mais essa, não tem como comparar. O Libório lutador não existe mais. Já fez o que tinha que ter feito. O Libório dono de time, promoter ou seja lá o que vier pela frente é que tem a missão principal agora. Lutar é uma coisa que abdiquei há muito por causa disso, e nosso time tem condição de se tornar o melhor do mundo. O Libório não é mais lutador. E o Libório córner está vencendo mais que o Libório lutador, e ganhando melhor também (Risos).
Você na década de 90 se notabilizou na grande imprensa por pregar a paz e o Jiu-Jitsu nos Jogos Olímpicos. Hoje largou essa bandeira?
Era uma época diferente. O Rio de Janeiro disputava a chance de se tornar cidade-sede das Olimpíadas e era uma grande chance para atrair para o Jiu-Jitsu pelo menos um pouco de atenção. O Jiu-Jitsu continua crescendo pelo mundo, mas ainda não tem um nível de organização e um número de atletas faixas-pretas necessários para chegar lá. Ao meu ver ainda vai demorar uns bons anos, afinal faltam faixas-pretas para todos os pesos nos demais paises. E ainda tem que ter a mesma estrutura no feminino. Depende muito de investimento de marketing, professores habilitados em todos os países, tem muita coisa a ser feita. E não é culpa de ninguém, é algo muito difícil mesmo, um tremendo investimento que ninguém tem condições de fazer sozinho. Então acho que o grappling ou submission wrestling está até um pouco mais avançado nesse sentido, é um esporte que tem uma grande possibilidade por ter mais corpo nos EUA, mais praticantes jovens, mais suporte e mais investimento. O pessoal do wrestling nos EUA, que tem mais nome e patrocínio, com uma adaptação rápida consegue disputar no mesmo alto nível dos brasileiros.
Entrevista - Wallid Ismail
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Wallid: “Em nossa época quem perdia estava acabado”
A luta que mais marcou o I Mundial de Jiu-Jitsu, em 1996, foi sua derrota para Roberto Roleta nas semifinais do peso. Como você vê aquela luta hoje?
Aquele Mundial foi uma loucura, sempre tive aquela cabeça de psicopata, vencer ou vencer. Mas, faltando 20 segundos, perdi. Lembro que saíram páginas inteiras no “O Globo” e no “Jornal do Brasil”: “Cai invencibilidade de Wallid”, pois eu nunca tinha perdido na faixa-preta. Então me lembro como se fosse hoje, meu irmão: levantei a cabeça e fiquei esperando para receber meu trofeuzinho de terceiro lugar.
Depois do campeonato, fui à festa dos campeões organizada pelo José Moraes, ninguém esperava que eu fosse aparecer. Mas meu espírito é de vencedor. Lá, o José Moraes, que todos sabem ser um apaixonado pela família Gracie, falou: “Wallid, vou te dizer, você é um cara que faz bem pro Jiu-Jitsu, sempre promove, do seu jeito, o esporte e faz as pessoas falarem de Jiu-Jitsu.
Quando a gente perde vem momentos difíceis, então se você estiver precisando de patrocínio fala comigo segunda-feira”. Dito e feito, arrumei o patrocínio do Iate Clube. Dois meses depois fui para o Japão e ganhei um puta evento lá. Fui um dos pioneiros, um dos primeiros brasileiros do Jiu-Jitsu depois da família Gracie a ir lutar pro Japão [O U-Japan, em novembro de 1996], eu e Carlão Barreto.
Como foi sua trajetória no campeonato até a famigerada raspagem?
Venci primeiro um cara de São Paulo, meu amigo hoje, esqueci o nome. Depois já foi a luta com ele [Roleta], era disputa de cinco faixas-pretas no máximo pelo título. A rivalidade me motivava, o pessoal cantava “O paraíba é mau, pega um, pega geral” e eu tava ganhando até 9m40s. Faltando 20 segundos o cara foi, me raspou e foi pras costas. Era uma raspagem boa que ele tinha, contou só os pontos das costas porque eu não caí embaixo. Já na época eu falei, ele venceu, parabéns para ele. Não fiquei de caô. E a vida continuou. As pessoas viram o valor que eu dava para o esporte. Nunca fui um cara talentoso mas poucos treinaram como eu.
O que você faria diferente hoje nessa luta?
Agora é mole de falar (risos). Se eu levanto, acabava a luta, afinal eu tinha a vantagem de ter ficado na meia-guarda... Falar agora é mole! Mas valeu. Espero que ele tenha tido bons frutos depois daquela vitória, que ele tenha tirado o suco da laranja. Porque toda minha vitória eu espremia o suco da laranja até não ter mais nada, só o bagaço (risos).
Por que o Mundial de 1996 foi seu último campeonato de kimono?
Depois dali eu não quis mais, comecei a lutar vale-tudo e não dava mais para treinar como um condenado e não ganhar nem um tostão. Mas depois disso fiz minha última luta de kimono com o Royce [na arena em Copacabana].
O que mudou do seu tempo para os Mundiais de hoje?
Na minha época quando se perdia você estava acabado. Hoje o pessoal perde e ganha e vai levando adiante. No meu caso, ninguém comemorava mais as vitórias do que eu, mas em compensação ninguém era mais sacaneado que eu nas derrotas. Tudo tem um preço. Nas derrotas o atleta tem que cumprimentar o oponente com hombridade e dizer: “É isso aí, é a sua vez de comemorar”.
Que momentos mais o marcaram depois, já como espectador?
Fiquei um tempão sem ir assistir aos Mundiais e, há uns três anos, dei de cara com o Tijuca Tênis Clube lotado e muito bem organizado. Aquilo para mim foi a maior emoção. Hoje o Mundial é um show e tem um profissionalismo muito grande. As empresas têm que investir no Mundial. O Carlinhos faz um excelente trabalho. Sinceramente, fui o cara que mais critiquei o Carlinhos, zoei mesmo, mas hoje vendo por esse olhar de promotor, vejo que ele fez um trabalho sensacional. Não vou dizer que me arrependo porque não me arrependo de nada do que fiz. Mas hoje vejo a guerra que é armar um evento, três horas de sono no máximo, então olho para trás e bato palma para o que foi construído porque todo promotor é um guerreiro.
No que a experiência como atleta de Mundiais o ajuda na sua profissão hoje?
Em tudo. Mas há uma diferença: atleta é coração puro, e promotor, como aprendi com Antonio Inoki, não pode ter sentimentos, “no feeling”. Ninguém teve mais confusão do que eu com a Gracie Barra e a Brazilian Top Team, mas depois como promotor vi que não tinha nada a ver. A nova geração não conheceu a loucura dessa época pré-Mundiais, a paixão, as rivalidades. Para o lado romântico era bom, mas para o lado profissional não era. Hoje conseguir patrocínio ficou mais fácil, o Jiu-Jitsu é o esporte do momento. O Mundial é uma fase recente do Jiu-Jitsu, gosto de lembrar das Copas Light Boat e Company, que aliás foi a primeira grande empresa a acreditar no Jiu-Jitsu. Na minha época, fui o primeiro cara da história do Jiu-Jitsu a botar marcas no ombro dos kimonos, além das costas, a ter uma assessoria de imprensa. Na minha opinião então, o que faz o esporte é a mídia e os patrocínios. Quando lutei com o Renzo, saímos cada um numa página inteira da edição de domingo do “Jornal do Brasil”. Depois de vencer o Renzo e o Royce não conseguia andar na rua! Então sempre pensei grande. Depois de ganhar do Royce, berrei: “Só falta o Rickson!” Não nasci pra ser um cara mais ou menos, era calça de veludo ou bunda de fora.
Há alguma luta de kimono que ainda gostaria de fazer?
Tô legal de lutar de pano. É bonito de se ver, mas tô legal. Que Deus abençoe essa excelente nova geração de atletas e que logo depois façam transição para o MMA para defender o nome do Jiu-Jitsu. Esse para mim é o caminho, apesar de hoje não precisarmos provar nada pra ninguém. Hoje é mais tranqüilo. Eu sou da época que me perguntavam, “what is Jiu-Jitsu?”, perguntavam se era igual karatê. Tá entendendo ou não?
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RENZO GRACIE, nas vezes de árbitro, observa atento Amaury Bitetti levantar na guarda de Gurgel. Já que o companheiro Libório não o enfrentaria na final, a vitória deu a Bitetti o primeiro título mundial absoluto da História.
1996
Fazendo História
Como surgiram os primeiros campeões mundiais de Jiu-Jitsu da faixa-preta
A área de aquecimento tem poucos atletas. Nos tatames, Ricardo Libório encara o adversário. Remco Pardoel devolve o olhar. Baixo e atarracado, aquele considerado na época pelo Mestre Carlson como seu melhor aluno em atividade fica ainda menor de joelhos dobrados. A postura é para se prevenir das quedas do holandês. O Tijuca Tênis Clube está aquecido pelo verão carioca. Quase quatro mil pessoas nas arquibancadas se levantam quando “Liba” fecha as pernas em torno do quadril de Pardoel, escala-as apoiando-se nas largas costas do oponente e, finalmente, completa a chave no braço esquerdo. Vitória brasileira. Mais uma.
O I Mundial de Jiu-Jitsu foi realizado no primeiro fim de semana de fevereiro de 1996, no Rio de Janeiro. Teve a participação de lutadores de nove países: Brasil, Estados Unidos, França, Japão, Holanda, Suíça, Emirados Árabes, Itália e Cuba. Para trazer lutadores estrangeiros, houve uma luta mais dura que a de Libório descrita há pouco. Afinal, o Jiu-Jitsu engatinhava em lugares afora Brasil e EUA. Os poucos focos eram de difícil comunicação, já que o acesso a internet ainda se expandia a passos de tartaruga. Ainda sim, veio um punhado. E alguns conseguiram boas colocações (na faixa-azul). Do Brasil, os melhores se inscreveram, tal qual aconteceria nos anos seguintes.
http://www.graciemag.com/data/images/news/categories/cat_148/Almanaque02.jpg
Roleta grampeia as costas de Wallid, e a autoridade de Sergio Ignácio registra quatro pontos.
É domingo, dia 3 de fevereiro, dia da faixa-preta. O ambiente é bem diferente daquele dos atuais campeonatos. Poucas lutas para o título, muito respeito e silêncio na arquibancada. Helio Moreira, o folclórico Sonequinha, abre as disputas, contra Otávio Couto, o Ratinho. A vitória de Soneca vem numa luta parelha, mas um ataque pouco usual nas costas faz os espectadores aplaudirem, pela primeira vez no dia. Soneca apóia a cabeça no chão, se pendura nas golas de Ratinho e, feito um compasso, traça um arco em volta do adversário, saindo de um lado, chegando no outro. Ele daria o nome ao movimento: “volta ao mundo”.
Mas é o mundo que gira em torno de si por algumas horas após a cena, enquanto faixas-pretas se credenciam para as finais. Royler Gracie vence com autoridade Marco Aurélio, e consegue a revanche do último Brasileiro. Antes que chegue à decisão contra Vinicius Draculino, passa por João Roque, em outra grande luta. Jamelão, no médio, despacha um grande mito do Jiu-Jitsu: Sérgio Penha, que voltara a competir cerca de 15 anos após memorável combate contra Rickson Gracie, numa decisão de campeonato carioca. Algumas chaves são interrompidas por que lutas importantes se desenharam. A espera é pelas duas da tarde, quando, ao vivo, o Sportv começa a transmitir o evento.
A História, ao vivo
No início do televisionamento, surge na área de lutas o então mais famoso lutador de Jiu-Jitsu sem sobrenome Gracie: Wallid Ismail. Seu adversário na semifinal do meio-pesado é Roberto Magalhães, o Roleta, que fora graduado a quatro dias da competição. “Se eu perder, corto a minha mão”, prometera o amazonense. Talvez Wallid estivesse preparado para lutadores de Jiu-Jitsu. Mas não para o “esqui-jitsu”. Por mais de nove minutos, no entanto, ele parece sem risco de ficar cotó. Se embola nas longas pernas do adversário, e mantém-se com boa base, combatividade suficiente para uma vitória por decisão. Só que, a segundos do fim, a estranha alavanca funciona, e Roleta, após projetar Wallid com uma das pernas entre as do rival, pára nas costas, enganchado, senhor de quatro pontos que lhe catapultam para o time de melhores do mundo.
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No único filme colorido usado por Ricardo Azoury, Gordo usa a guarda para conter Jamelão.
Murilo Bustamante x Fábio Gurgel. É de se estranhar que dois dos melhores lutadores da década passada pudessem ter se enfrentado apenas uma vez na faixa-preta até esta final do peso pesado. Mas a freqüência de confrontos diretos era, de fato, muito menor antigamente. Gurgel, que havia perdido em 1993, aproveita a chance e, com uma queda e uma passagem, vence o combate por 5 a 0.
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Gurgel busca passar a guarda de Bustamante para levar o pesado.
Outra revanche, também de 1993, na final do super-pesado: Ricardo Libório vai atrás de seu único algoz até então na carreira, Leonardo Castello Branco, que o ganhara na faixa-marrom. A gana é grande, e o prêmio alcançado. Uma queda, uma quase montada, e enfim a eletrizante vitória do lutador da Carlson.
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Com o joelho na barriga do adversário, Royler procura o juiz e se certifica que a posição foi computada.
Soneca é campeão ao vencer Wellington Megaton no pluma, Royler ao derrotar Draculino no pena, e Roberto Gordo ao se impor sobre Jamelão no médio. Zé Mario vence o pesadíssimo sem disputar a decisão (Roberto Traven, de ombro contundido, retira-se). Paulo Barroso no leve, leva o título, após chegar na final com o companheiro de equipe Renato Barreto que, por sua vez, tinha sido beneficiado por não lutar a semifinal: deparara-se com o recém-graduado (e também da Gracie Humaitá) Saulo Ribeiro, aquele se tornaria, nos anos seguintes, o maior detentor de títulos mundiais em anos distintos da faixa-preta (1997, 1998, 1999, 2000 e 2002).
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Soneca monta com classe na final do pluma.
Amaury absoluto
Após a vitória sobre Wallid, Roleta ainda não tinha acabado sua missão. Enfrentaria, na final, Luis Bebeo pela briga do ouro meio-pesado. Ele conta: “Foi uma grande festa após a vitória sobre o Wallid, mas eu queria mesmo era ser campeão, queria ser reconhecido pelo título, não por uma única vitória em cima de alguém, ainda que tenha sido uma vitória especial. Então, não me deixei contagiar, voltei para a arquibancada, botei meu walkie-man na orelha e me concentrei. Me preparei para outra luta dificílima, afinal o Bebeo era outro lutador bastante conhecido na época, mas acho que ele se assustou. Acabei pegando ele no triangulo”.
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Jamelão despacha o veterano Sérgio Penha.
Foi nesse passo, com os descontos para os desvios que a memória e os registros possam ter, que aquele memorável dia transcorreu, até o momento da luta entre Libório e Pardoel – conhecido por suas participações no então mais recente frisson das artes marciais, o UFC – pela divisão absoluto. Pelo outro lado da chave, e logo após a vitória do companheiro de equipe, entra em cena o melhor competidor da época, Amaury Bitetti. Seu adversário pela semifinal do absoluto é Fábio Gurgel. A quem Bitetti já tinha enfrentado inúmeras vezes, e perdido apenas uma.
O registro, no entanto, é apagado. Afinal, agora começou a era dos mundiais. E Bitetti, com boa base e jogando por cima, leva a melhor. A luta tem pouca ação, mas quem pode reclamar após assistir à final entre Roger e Jacaré dez anos depois? Libório abre passagem, e Bitetti se torna campeão mundial absoluto. O primeiro da História.
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Bebeo comemora ao fundo a passagem à final do meio-pesado enquanto Ricardo Americano, com o gesto semelhante, contesta a decisão do juiz.
1997
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Royler agarra Shaolin pelo pé para conquistar o pena.
Bitetti and Royler...
... sobram num Mundial marcado pela transição, W.O.s, e uma cassetada de fazer inveja ao Faustão
Aluta foi melhor que a do ano anterior, o resultado o mesmo: vitória de Bitetti, que se manteve por cima e tentou passar a guarda, soltando até uma estrela para tal. Levou não por pontos, mas na decisão do juiz. O placar foi, sim, alterado na semifinal entre os dois grandes nomes do campeonato, Royler e o próprio Bitetti. Neste confronto, o Gracie queria jogar por cima, mas foi surpreendido logo no início por uma passa-pé, e tomou dois pontos que lhe custaram qualquer chance de sair vitorioso do seu sétimo compromisso do dia.
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A queda com que Amaury encurtou os planos de Royler no absoluto.
Bitetti optou por não lutar na categoria de pesos e ainda foi beneficiado pelo W.O. de Nino Schembri, que abandonou o ginásio e a disputa do absoluto após a derrota para Saulo Ribeiro na final dos médios. Assim, enquanto Amaury havia enfrentado, até ali, apenas Alexandre Paiva, e vencido por uma queda e uma passagem de guarda, Royler suou feito um triatleta, com seis vitórias antes de encarar o eventual campeão.
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Por cima, Zé Mario venceria Gordo mas não voltaria para lutar a semifinal do absoluto.
O professor da Gracie Humaitá derrotou, no pena, Luis Amigo e Otávio Ratinho por finalização. Venceu Alexandre Soca por pontos e fez talvez a melhor luta da faixa-preta contra Vítor Shaolin, na finalíssima. Não satisfeito, ciscou entre os mais pesados, onde derrotou Arthur Ignarra e Léo Dalla antes de parar em Amaury.
Os W.O.s foram uma característica da principal categoria naquele ano.
Alguns atletas, após a disputa de seu próprio peso, desanimavam. Três anos depois, a CBJJ passaria as lutas do absoluto para sábado, e assim diminuiria este problema. Não resolveria um caso como o de Zé Mario Sperry, que acabou poupando Fabio Gurgel de uma semifinal. Ele havia vencido Saulo e depois Roberto Gordo. Contra o hoje professor da Gracie Barra Combat Team, chegou o mais perto de uma derrota na carreira esportiva até então. Perdia a luta até os momentos finais, quando conseguiu prender um braço do adversário com o próprio kimono e, para alívio da torcida da academia Carlson Gracie, passou a guarda e virou o placar. Exaurido, Sperry abandonou a chave após a peleja.
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Márcio Feitosa controla Leozinho para inaugurar os “clássicos leves” dos mundiais.
Pelo menos dois grandes personagens da faixa-preta naquele ano não figuraram no absoluto: Márcio Feitosa e Leonardo Vieira, finalistas até 73kg. Nos anos seguintes, e com a adição de Vítor Shaolin à categoria, os três fariam entre si os maiores clássicos dos mais leves em Mundiais, até hoje. Naquele ano, vitória de Feitosa.
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Saulo puxa Nino, garante o ouro e, indiretamente, facilita os trabalhos de Amaury no absoluto.
Destaque em 1996, Roberto Roleta voltou a gravar seu nome na competição, ao fechar o meio-pesado com o xará Gordo. Como a Gracie Barra já tinha dois representantes, ele guardaria a sua estréia no aberto para 1998. Mas isso é assunto para a próxima edição.
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Timoneiro da Nova União, Dedé Pederneiras pára na guarda de Renato Barreto, eventual semifinalista até 73kg.
Entrevista – Ricardo Liborio
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Libório: “Depois do Mundial viu-se que o Jiu-Jitsu vendia e podia ganhar a TV”
No primeiro e único Mundial em que se elegeu os atletas mais técnicos de cada faixa, o nome de Ricardo Libório levou com sobras o prêmio na preta. O que esse título representa hoje para você?
Fiz parte de uma geração que entrou para a História, até mesmo por ter sido uma das primeiras. Então considero esse título bastante especial e tenho muito orgulho até hoje, só posso dizer isso. Foi importante, e não só pelo I Mundial ter sido o primeiro grande campeonato organizado. E acabou sendo o único título de mais técnico concedido. Depois desse não elegeram mais ninguém, devia ser um problema. Mas não tenho a mínima idéia por que não elegeram mais.
O que você acha que realmente impressionou o júri?
Certamente o fato de ter finalizado cinco das seis lutas que fiz no dia se não me engano. Só não finalizei a semifinal do absoluto, contra o Léo Castello Branco. O fato de as finalizações terem acontecido contra caras muito mais pesados e bons, como o judoca Marcelo Figueiredo e o holandês Remco Pardoel, no armlock, fez a diferença na hora da escolha.
Qual foi seu momento mais marcante no Mundial?
Eu era um cara de 83kg lutando numa categoria bem acima. Me inscrevi na categoria bem mais pesada para lutar com o Léo Castello Branco, era a minha missão nesse Mundial. Eu tinha perdido pro Léo em 1993 e tinha sido o único cara a me derrotar em campeonatos, então eu tinha que lutar com ele de novo. Sabia que tinha condições de ganhar dele e então me preparei melhor, e aconteceu. Foi uma queda ou uma passagem, por pontos, não lembro exatamente. Esse sem dúvida foi o momento mais marcante. Hoje acho o Léo um cara excepcional, um dos caras mais maneiros e que mais respeito no esporte. Ficamos grandes amigos.
Ainda que você tenha sido o mais técnico, você não saiu como o campeão absoluto, fechando com o Amaury Bitetti e dando o título para ele. Você se considera em parte campeão absoluto também? É outra situação que mudou com os anos, notadamente quando em 2003 Márcio Pé de Pano e Roger Gracie decidiram lutar à vera sendo da mesma academia...
Exato, isso não existia na época. Ocorreu que eu já havia ganhado o peso. Quando fui à semifinal com o Léo e ganhei, o Amaury ganhou o absoluto, eu já havia ganhado uma no peso, não faria sentido. Não me considero de maneira nenhuma também campeão absoluto de 1996, seria tirar o mérito do Amaury. Não faço isso, não sou assim. Foi até um acordo que fizemos antes da luta, passei pra ele e não tem problema nenhum. O Amaury foi o campeão absoluto e não me considero nada, não.
E você não lutou mais depois do Mundial de 1996. Por que parou ali?
Eu já estava vendo outras coisas para minha vida. Trabalhava como gerente do Banco do Brasil e era um trabalho full-time, não tinha muito como dividir.
O que mudou a partir desse primeiro Mundial?
Na época em que a gente começou não existia praticamente campeonatos de Jiu-Jitsu. Era época de uma galera como o Murilo, Fábio Gurgel, Royler e tinha no máximo um campeonato por ano, o “Armazém do Esporte”, nem lembro. Eram muito esparsos, hoje a freqüência é absurda. A Company realmente veio com o primeiro grande campeonato, dali o negócio começou a se desenvolver. O I Mundial, em 1996, foi um evento enorme: foi a primeira vez que tivemos TV ao vivo. Vejo esse Mundial de 1996 como um grande marco para o Jiu-Jitsu, porque depois dali todos viram que o Jiu-Jitsu tinha potencial para crescer e se espalhar pelo planeta. Viram que tinha condição de ser um esporte organizado, televisionado sem problema nenhum, e que vendia e atraía os patrocinadores. Marcou ainda pelo lado do profissionalismo: a partir dali muita gente viu que tinha capacidade para se dedicar profissionalmente ao negócio e participar de eventos grandes. Os atletas tornaram-se profissionais.
E hoje você lidera a American Top Team, na Flórida. Quem foi melhor, o Libório lutador ou o Libório córner?
Pois é, hoje a velha geração está sempre nos EUA, ou viajando pro Japão... Minha missão hoje é muito mais essa, não tem como comparar. O Libório lutador não existe mais. Já fez o que tinha que ter feito. O Libório dono de time, promoter ou seja lá o que vier pela frente é que tem a missão principal agora. Lutar é uma coisa que abdiquei há muito por causa disso, e nosso time tem condição de se tornar o melhor do mundo. O Libório não é mais lutador. E o Libório córner está vencendo mais que o Libório lutador, e ganhando melhor também (Risos).
Você na década de 90 se notabilizou na grande imprensa por pregar a paz e o Jiu-Jitsu nos Jogos Olímpicos. Hoje largou essa bandeira?
Era uma época diferente. O Rio de Janeiro disputava a chance de se tornar cidade-sede das Olimpíadas e era uma grande chance para atrair para o Jiu-Jitsu pelo menos um pouco de atenção. O Jiu-Jitsu continua crescendo pelo mundo, mas ainda não tem um nível de organização e um número de atletas faixas-pretas necessários para chegar lá. Ao meu ver ainda vai demorar uns bons anos, afinal faltam faixas-pretas para todos os pesos nos demais paises. E ainda tem que ter a mesma estrutura no feminino. Depende muito de investimento de marketing, professores habilitados em todos os países, tem muita coisa a ser feita. E não é culpa de ninguém, é algo muito difícil mesmo, um tremendo investimento que ninguém tem condições de fazer sozinho. Então acho que o grappling ou submission wrestling está até um pouco mais avançado nesse sentido, é um esporte que tem uma grande possibilidade por ter mais corpo nos EUA, mais praticantes jovens, mais suporte e mais investimento. O pessoal do wrestling nos EUA, que tem mais nome e patrocínio, com uma adaptação rápida consegue disputar no mesmo alto nível dos brasileiros.
Entrevista - Wallid Ismail
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Wallid: “Em nossa época quem perdia estava acabado”
A luta que mais marcou o I Mundial de Jiu-Jitsu, em 1996, foi sua derrota para Roberto Roleta nas semifinais do peso. Como você vê aquela luta hoje?
Aquele Mundial foi uma loucura, sempre tive aquela cabeça de psicopata, vencer ou vencer. Mas, faltando 20 segundos, perdi. Lembro que saíram páginas inteiras no “O Globo” e no “Jornal do Brasil”: “Cai invencibilidade de Wallid”, pois eu nunca tinha perdido na faixa-preta. Então me lembro como se fosse hoje, meu irmão: levantei a cabeça e fiquei esperando para receber meu trofeuzinho de terceiro lugar.
Depois do campeonato, fui à festa dos campeões organizada pelo José Moraes, ninguém esperava que eu fosse aparecer. Mas meu espírito é de vencedor. Lá, o José Moraes, que todos sabem ser um apaixonado pela família Gracie, falou: “Wallid, vou te dizer, você é um cara que faz bem pro Jiu-Jitsu, sempre promove, do seu jeito, o esporte e faz as pessoas falarem de Jiu-Jitsu.
Quando a gente perde vem momentos difíceis, então se você estiver precisando de patrocínio fala comigo segunda-feira”. Dito e feito, arrumei o patrocínio do Iate Clube. Dois meses depois fui para o Japão e ganhei um puta evento lá. Fui um dos pioneiros, um dos primeiros brasileiros do Jiu-Jitsu depois da família Gracie a ir lutar pro Japão [O U-Japan, em novembro de 1996], eu e Carlão Barreto.
Como foi sua trajetória no campeonato até a famigerada raspagem?
Venci primeiro um cara de São Paulo, meu amigo hoje, esqueci o nome. Depois já foi a luta com ele [Roleta], era disputa de cinco faixas-pretas no máximo pelo título. A rivalidade me motivava, o pessoal cantava “O paraíba é mau, pega um, pega geral” e eu tava ganhando até 9m40s. Faltando 20 segundos o cara foi, me raspou e foi pras costas. Era uma raspagem boa que ele tinha, contou só os pontos das costas porque eu não caí embaixo. Já na época eu falei, ele venceu, parabéns para ele. Não fiquei de caô. E a vida continuou. As pessoas viram o valor que eu dava para o esporte. Nunca fui um cara talentoso mas poucos treinaram como eu.
O que você faria diferente hoje nessa luta?
Agora é mole de falar (risos). Se eu levanto, acabava a luta, afinal eu tinha a vantagem de ter ficado na meia-guarda... Falar agora é mole! Mas valeu. Espero que ele tenha tido bons frutos depois daquela vitória, que ele tenha tirado o suco da laranja. Porque toda minha vitória eu espremia o suco da laranja até não ter mais nada, só o bagaço (risos).
Por que o Mundial de 1996 foi seu último campeonato de kimono?
Depois dali eu não quis mais, comecei a lutar vale-tudo e não dava mais para treinar como um condenado e não ganhar nem um tostão. Mas depois disso fiz minha última luta de kimono com o Royce [na arena em Copacabana].
O que mudou do seu tempo para os Mundiais de hoje?
Na minha época quando se perdia você estava acabado. Hoje o pessoal perde e ganha e vai levando adiante. No meu caso, ninguém comemorava mais as vitórias do que eu, mas em compensação ninguém era mais sacaneado que eu nas derrotas. Tudo tem um preço. Nas derrotas o atleta tem que cumprimentar o oponente com hombridade e dizer: “É isso aí, é a sua vez de comemorar”.
Que momentos mais o marcaram depois, já como espectador?
Fiquei um tempão sem ir assistir aos Mundiais e, há uns três anos, dei de cara com o Tijuca Tênis Clube lotado e muito bem organizado. Aquilo para mim foi a maior emoção. Hoje o Mundial é um show e tem um profissionalismo muito grande. As empresas têm que investir no Mundial. O Carlinhos faz um excelente trabalho. Sinceramente, fui o cara que mais critiquei o Carlinhos, zoei mesmo, mas hoje vendo por esse olhar de promotor, vejo que ele fez um trabalho sensacional. Não vou dizer que me arrependo porque não me arrependo de nada do que fiz. Mas hoje vejo a guerra que é armar um evento, três horas de sono no máximo, então olho para trás e bato palma para o que foi construído porque todo promotor é um guerreiro.
No que a experiência como atleta de Mundiais o ajuda na sua profissão hoje?
Em tudo. Mas há uma diferença: atleta é coração puro, e promotor, como aprendi com Antonio Inoki, não pode ter sentimentos, “no feeling”. Ninguém teve mais confusão do que eu com a Gracie Barra e a Brazilian Top Team, mas depois como promotor vi que não tinha nada a ver. A nova geração não conheceu a loucura dessa época pré-Mundiais, a paixão, as rivalidades. Para o lado romântico era bom, mas para o lado profissional não era. Hoje conseguir patrocínio ficou mais fácil, o Jiu-Jitsu é o esporte do momento. O Mundial é uma fase recente do Jiu-Jitsu, gosto de lembrar das Copas Light Boat e Company, que aliás foi a primeira grande empresa a acreditar no Jiu-Jitsu. Na minha época, fui o primeiro cara da história do Jiu-Jitsu a botar marcas no ombro dos kimonos, além das costas, a ter uma assessoria de imprensa. Na minha opinião então, o que faz o esporte é a mídia e os patrocínios. Quando lutei com o Renzo, saímos cada um numa página inteira da edição de domingo do “Jornal do Brasil”. Depois de vencer o Renzo e o Royce não conseguia andar na rua! Então sempre pensei grande. Depois de ganhar do Royce, berrei: “Só falta o Rickson!” Não nasci pra ser um cara mais ou menos, era calça de veludo ou bunda de fora.
Há alguma luta de kimono que ainda gostaria de fazer?
Tô legal de lutar de pano. É bonito de se ver, mas tô legal. Que Deus abençoe essa excelente nova geração de atletas e que logo depois façam transição para o MMA para defender o nome do Jiu-Jitsu. Esse para mim é o caminho, apesar de hoje não precisarmos provar nada pra ninguém. Hoje é mais tranqüilo. Eu sou da época que me perguntavam, “what is Jiu-Jitsu?”, perguntavam se era igual karatê. Tá entendendo ou não?
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